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Escrito por RAEL ROGOWSKI   
Qui, 06 de Agosto de 2009 11:59

Por Rael Rogowski,
Advogado e assessor jurídico do Movimento SOS Vida


Machado de Assis na sua obra intitulada "Dom Casmurro" expõe uma das características mais marcantes do protagonista, um homem idoso no crepúsculo da existência: a visão amarga e doída de quem foi traído e machucado pela vida.

No Brasil temos milhões de "Dons Casmurros" machucados pela vida, marcados pelo abandono da família e pela omissão do Estado.

O fim do ciclo da existência por si só já traz seus infortúnios, como as limitações físicas, as perdas anatômicas como a audição, acuidade visual e etc., a memória não é mais a mesma, patologias próprias da idade acometem o indivíduo, não raro trazendo desconforto e dor. Além de ser uma fase de consumição de corpo físico, muitos indivíduos ainda são atormentados com os aspectos transcendais e espirituais, tecendo juízo crítico de sua performance durante a existência.

O que fiz de minha vida? A morte é o fim de tudo ou haverá uma segunda chance?

E o pior é que, via de regra, os idosos cruzam esse umbral solitários, sem o apoio e o amparo afetivo e psicológico dos familiares que não percebem as sutilezas do processo envolvido no final do ciclo existencial.

Por certo foi pensando nisso tudo que o legislador brasileiro criou um programa de proteção à velhice estampado no Estatuo do Idoso. Infelizmente no Brasil ainda há um abismo entre as normas programáticas do estatuto e a realidade. Exemplo dramático disso está personificado na pessoa do idoso Adão Manoel dos Santos, vítima de abandono familiar e omissão de socorro dos poderes públicos no município de Novo Hamburgo (RS), região metropolitana de Porto Alegre.

Morador de rua, há uma semana encontra-se caído em frente a uma escola naquele município. Muito doente, está com a perna esquerda ´podre´, exalando um mau cheiro insuportável. Ele tem um dreno na uretra para expelir o pus. Faminto e exposto aos rigores do inverno gaúcho o idoso agonizava.

Após muita insistência clamando por socorro junto às autoridades municipais e estaduais e ante a total omissão dessas, um grupo de professores pediu a intervenção do Movimento SOS Vida que desde 2003 atua gratuitamente em defesa da vida e da saúde de pessoas carentes.

Os fatos foram denunciados à Anistia Internacional por violação aos direitos humanos e uma ação judicial em favor do idoso foi ajuizada na sexta-feira feira (31), na 1ª Vara do Juizado Especial Federal Cível de Novo Hamburgo, patrocinada pelo advogado João-Francisco Rogowski, coordenador das ações jurídicas do Movimento no Estado do RS. Na ação foram solicitadas a internação hospitalar e a assistência social ao idoso; foi requerida tutela cautelar de urgência em face da gravidade da situação e periclitação de vida. O processo foi autuado sob o n.º 2009.71.58.008208-4 -, até o momento sem despacho.

Numa cidade de colonização alemã, a pele negra de Manoel destoa dos cabelos loiros e olhos azuis, característica predominando na população, o que não impediu o gesto magnânimo de um grupo de cidadãos de vir em defesa do semelhante.

Ser velho, pobre e preto neste país parece ser um estigma, uma maldição -, mas enquanto existirem pessoas solidárias como esse grupo de educadores de Novo Hamburgo, haverá esperanças.

Somente pela pressão e cobrança dos cidadãos sobre as autoridades é que as leis de proteção ao idoso sairão do papel e materializar-se-ão em ações concretas.


O registro fotográfico da calamitosa situação do idoso, aqui.

www.sosvida.rg.com.br

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(Fonte: Espaço vital).

 

 

 

 

 

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